Ao tomar conhecimento do grande pesar que se abateu sobre Coreaú, embora pesaroso, lembrei-me de parafrasear a primeira estrofe da tradicional marchinha carnavalesca “Ó Jardineira” de Benedito Lacerda e Humberto Porto: “Ó jardineira porque estás tão triste/Mas o que foi que te aconteceu/Foi a camélia que caiu do galho/ Deu dois suspiros e depois morreu”, tão popular no meio palmense de outros tempos, para fazer a seguinte indagação:
- Ó Velha Palma porque estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu?
- Foi a Carmélia, que de tanta saudade, deu dois suspiros e depois morreu.
Palma, tua tristeza é perfeitamente compreensível. A Carmélia era uma das camélias, róseas flores, do teu jardim. Mas lembra-te que teus filhos são seres finitos que caminham para o infinito. Sugere a eles que reflitam sobre esta verdade bíblica, expressa no Livro da Sabedoria (Sb 2,2.5): “Um belo dia nascemos e, depois disso, seremos como se jamais tivéssemos sido! (...). A passagem de uma sombra: eis a nossa vida, (...).”
Diz Buarque de Holanda em seu famoso Dicionário Aurélio – Século XXI: “Camélia - Gênero de arbustos ou de pequenas árvores tropicais sempre-verdes da família das teáceas, com folhas alternas, brilhantes, elípticas e de pecíolo curto, e de flores alvas ou róseas.”
Mas a Carmélia, no universo das cores, tinha preferência pela cor azul. Assim, por muitos anos, pertenceu a Pia União das Filhas de Maria da Paróquia de Coreaú, cujo distintivo era uma fita azul com a medalha milagrosa. Nesta associação religiosa, em várias ocasiões, cantou, garbosamente, este refrão: “Eu prometi fiel serei./Eu prometi fiel serei,/sou filha de Maria.”
Nas festas de setembro de recuadas épocas, nas animadas quermesses, com a fidelidade que lhe era peculiar, usando o laço de fita azul, ela cantava com avultada vibração o hino do Partido Azul: “Nas campinas de esmeraldas/da feliz terra de Palma, fulgura o Partido Azul,/ fascinando a nossa alma. (...).”
Devota de Maria, a Mãe do Salvador, que em Coreaú é venerada com o título de Nossa Senhora da Piedade, tanto no período de 5 a 9 de setembro, em que se processa, anualmente, o novenário em honra da padroeira, quanto em outras oportunidades, ela cantava com todo entusiasmo este belo hino dedicado a Virgem da Piedade: “Ó Virgem da Piedade/Tesouro de salvação/Sois esperança dos crentes/Ó mãe de Consolação. (...).”
Essa figura tão popular, em Coreaú, gostava de política. Nas décadas de 1940 e 1950, era udenista. Participava das campanhas eleitorais com muito empenho e ardor. Para lembrar este tempo, registramos, aqui, um trecho da música da campanha de Paulo Sarasate ao Governo do Ceará, em 1954, pela União Democrática Nacional – UDN, que os udenistas palmenses, entre eles a Carmélia, cantaram durante a movimentação política desse acirrado pleito eleitoral: “Alerta cearense,/escuta a nossa convocação!/Votando em Sarasate,/na capital e em todo sertão./Para elegermos a três de outubro/nosso governador.” A UDN, na Palma de então, tinha o comando do Coronel Ximenes (Francisco Napoleão Ximenes).
Neste necrológio, merecem, ainda, serem destacadas duas importantes características dessa distinta criatura: uma ligada ao lazer, a outra a crença popular. Nos bailes dançantes, na mocidade, ela dançava da valsa à mazurca, do bolero ao xote, sem esquecer o frevo, o mambo e as marchinhas de carnaval. Quando alguém era acometido de quebranto ou mau-olhado, logo a Carmélia era chamada para rezar.
Por último, é lícito realçar que essa senhorita, como professora leiga do ensino elementar nas Escolas Reunidas de Coreaú, prestou relevante serviço à educação coreauense.
Carmélia, seus conterrâneos lamentam sua ausência física, mas sua memória permanecerá viva nos anais de Coreaú. Descanse em Paz!
Fortaleza, 18 de agosto de 2010
Leonardo Pildas

